Pequim ocupou o vazio diplomático deixado pelos EUA no Oriente Médio e sequer precisou abordar as violações dos direitos humanos praticadas pelos dois regimes. Duas ditaduras rivais do Oriente Médio concordam em restabelecer relações diplomáticas sob a batuta da China. Em princípio, a notícia parece ser promissora se a reaproximação servir para acalmar as tensões na região. Os regimes da Arábia Saudita e Irã disputam a liderança regional e estão vinculados à maioria dos conflitos que se desenrolam nos países ao seu redor.
O acordo assinado na sexta-feira (10) em Pequim vinha sendo cozinhado em fogo lento há dois anos, com cinco tentativas de negociações fracassadas no Iraque e em Omã. Ponto para a China, que se aproveitou do vazio diplomático deixado pelos EUA no Oriente Médio e costurou uma reaproximação calcada essencialmente no pragmatismo.
O sectarismo permeou a rivalidade entre a Arábia Saudita, sunita, e o Irã, xiita. Os dois países romperam oficialmente em 2016, quando o reino executou o clérigo xiita saudita Nimr al-Nimr, deflagrando um violento ataque de manifestantes à sede de sua embaixada em Teerã.
Até o ano passado, os dois países se enfrentaram numa guerra por procuração no Iêmen. A Arábia Saudita liderou uma campanha militar para reprimir os rebeldes houthis, alinhados ao Irã, com um resultado desastroso: 150 mil mortos e a mais grave crise humanitária do mundo, segundo a ONU, com 20 milhões de pessoas condenadas à fome.
O primeiro teste para saber se este acordo é eficaz será justamente no Iêmen, onde um cessar-fogo expirou em outubro e precisa ser renovado. Arábia Saudita e Irã se habituaram a medir forças, apoiando diferentes facções em conflitos sangrentos no Iraque, na Síria e no Líbano.
A distensão é encarada como um passo significativo para a região. Pequim se fortalece com potencial para atuar como protagonista, ao passo que a influência americana parece diminuta. Sob este aspecto, o governo Netanyahu, que contava com a ajuda dos EUA para chegar a um acordo com a Arábia Saudita, sai perdendo e se isola ainda mais.
Sob o governo Trump, o acordo nuclear firmado com o Irã se esvaiu após a retirada dos EUA. Biden tentou retomá-lo, mas o regime teocrático ganhou tempo para enriquecer urânio a 84% de pureza e se encontra mais próximo da fabricação de uma bomba atômica, conforme constatou recentemente a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Paralelamente, o governo americano esfriou relações com a Arábia Saudita, depois do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, crítico do regime esquartejado nas dependências do consulado saudita em Istambul. Segundo a inteligência americana, ele foi morto a mando do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.
Apesar da pressão interna contra o reino, o governo Biden foi obrigado a recuar e conceder imunidade ao príncipe no processo movido pela noiva do jornalista. A alta dos preços dos combustíveis provocada pela guerra da Rússia na Ucrânia fez o presidente americano desembarcar em Riad para um encontro constrangedor com Bin Salman e sair de lá de mãos vazias.
Ancorado no modelo autoritário, a China sequer precisou se dar ao trabalho de abordar temas espinhosos, como as violações dos direitos humanos praticadas pelos regimes saudita e iraniano. Poliu arestas que seriam empecilhos para os EUA, e tornou mais curto o caminho para o acordo.
O gigante asiático entra forte como mediador, para transformar o palco geopolítico, tal como era conhecido até agora por seus atores. Mas não significa que a missão será simples.



