Foto: Gary Cameron/Reuters
O dólar hoje fechou em queda, apesar das incertezas em relação ao acordo entre os Estados Unidos e o Irã que guiaram as expectativas dos investidores nos últimos dias. Nesta sexta-feira (8), a moeda americana recuou 0,6% frente ao real e terminou o dia cotada a R$ 4,8939, menor nível de encerramento desde 15 janeiro de 2024, quando fechou a R$ 4,8662.
A queda recente do dólar pode ser explicada pelo elevado diferencial de juros entre o Brasil e outras economias, fator que estimula a entrada de capital estrangeiro no País e favorece a valorização do real. Esse movimento é conhecido como carry trade, estratégia em que investidores buscam lucrar com a diferença entre as taxas de juros de diferentes países.
O cenário atual tem levado instituições financeiras a revisarem projeções para o câmbio. Em relatório macroeconômico divulgado na quinta-feira (7), a XP Investimentos cortou a estimativa para o dólar ao fim de 2026 de R$ 5,3 para R$ 5. A decisão reflete o entendimento de que o Brasil é um “vencedor relativo” do choque global de energia, de forma semelhante ao observado em 2025, durante a elevação das tarifas comerciais pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O BTG Pactual seguiu pelo mesmo caminho. Nesta sexta-feira (8), o banco revisou a projeção da taxa de câmbio de R$ 5,2 para R$ 4,9 no fim de 2026, por ver uma combinação mais favorável para o real, com commodities em alta, dólar em tendência de enfraquecimento global e diferencial de juros elevado no Brasil. “O real tem se destacado frente às cestas de moedas emergentes e de commodities, em linha com a exposição externa relativamente mais favorável do Brasil ao choque energético”, destaca.
Os fatores que movimentaram o mercado nesta sexta-feira (8)
O mercado monitorou o cessar-fogo no Oriente Médio após registros de novos ataques. Segundo o Comando Central dos EUA, embarcações americanas foram alvo de ofensiva iraniana no Estreito de Ormuz, classificada por Washington como “ataques não provocados”. Os EUA retaliaram atingindo instalações militares iranianas, enquanto os Emirados Árabes responderam aos supostos ataques do Irã com mísseis e drones. Teerã afirmou na quinta-feira (7) que ainda avalia propostas americanas para encerrar a guerra.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, minimizou os novos confrontos com o Irã e reiterou que a trégua segue em vigor. Já o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que Washington ainda não recebeu uma resposta do Irã sobre a proposta americana para encerrar as hostilidades no Oriente Médio.
Nesta sexta-feira (8), os investidores acompanharam ainda o relatório dos EUA sobre folha de pagamento de setores não-agrícolas do país, o payroll, que veio acima das expectativas do mercado. Segundo dados do Departamento do Trabalho do País, a economia dos Estados Unidos criou 115 mil empregos em abril, em termos líquidos. As estimativas de analistas consultados pelo Projeções Broadcast variavam de corte de 15 mil vagas a geração de 135 mil postos, com mediana de 63 mil. O relatório é a principal métrica do mercado de trabalho dos EUA.
“Com a criação de vagas acima do esperado e o desemprego estável em 4,3%, o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) ganha um conforto para cadenciar os cortes de juros e trazer a inflação para a meta, afastando os temores de uma desaceleração econômica que flertava com o risco de estagflação”, diz Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad.
No mercado doméstico, o IGP-DI subiu 2,41% em abril, acelerando frente à alta de 1,14% em março, informou a FGV. O resultado ficou levemente acima da mediana das projeções do mercado, de 2,39%, cuja faixa ia de 1,83% a 2,60%. Com isso, o índice acumula alta de 2,92% no ano e avanço de 0,78% em 12 meses.
A pressão inflacionária sugere manutenção da postura conservadora do Banco Central na política monetária, o que favorece o diferencial de juros do Brasil em relação a outros países e as operações de carry trade.
Vale investir em dólar?
A queda recente na cotação, embora ainda reflita um cenário incerto, abre espaço para os brasileiros ampliarem sua exposição ao dólar a um preço mais acessível em comparação aos últimos meses. Esse movimento ganha mais relevância diante da relação risco e retorno que os ativos dolarizados podem oferecer ao portfólio.
Os títulos soberanos dos Estados Unidos, por exemplo, continuam oferecendo aos investidores retornos acima de 3% em dólar. Segundo especialistas, a rentabilidade, aliada à segurança da economia americana, atua como proteção ao chamado “risco Brasil”, que pode voltar a pressionar o câmbio nos próximos meses com a proximidade das eleições presidenciais.
Além disso, os efeitos da guerra ajudaram o dólar a se manter abaixo das projeções do mercado no curto prazo. Segundo dados do Boletim Focus, os bancos e corretoras estimam um câmbio de R$ 5,25 até o fim do ano.
“Olhando para o histórico, este seria um momento favorável. Mas o foco deve ser em manter uma parcela no exterior e enviar recursos de forma recorrente, independentemente da cotação do dólar”, afirma Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.
Por Daniel Rocha, Beatriz Rocha e Silvana Rocha, do Broadcast



